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Há alguns meses, pesquisando a CSDDD para a minha tese, me deparei com uma notícia que passou quase despercebida fora dos círculos de compliance internacional. Em abril de 2026, o Conselho de Estado chinês aprovou um conjunto de regulamentos que reforça mecanismos já existentes de proteção de dados, segurança nacional e resposta a medidas estrangeiras. Arquivei aquilo na cabeça como mais um capítulo da rivalidade regulatória entre China e Ocidente. Porém como estava focado na tese, deixei a pesquisa sobre este tema de lado. Porém decidi voltar minha atenção esta semana, já no final de agosto, como todo italiano costuma fazer.
Uma empresa, vários países, vários donos da lei
Durante décadas, uma multinacional respondia principalmente às leis do país onde estava sediada. Isso mudou. Uma marca como a Zara, a H&M, a Adidas ou a Volkswagen hoje tem sede em um continente, investidores em outro, fábricas num terceiro país e fornecedores espalhados por dezenas de jurisdições. Ela vive dentro de vários sistemas legais ao mesmo tempo, e esses sistemas começaram a mandar fazer coisas diferentes. Pense numa empresa fictícia, a Global Shoes: design na Alemanha, marketing nos Estados Unidos, produção na China, venda na Europa. Até 2025, esse arranjo era complicado, mas gerenciável. Depois de abril de 2026, ficou, em certos pontos, impossível de operar sem contradição.
O que a Europa e os Estados Unidos passaram a exigir
Depois de denúncias envolvendo trabalho forçado e danos ambientais em cadeias de fornecimento, Europa e Estados Unidos decidiram que "eu não sabia o que meu fornecedor fazia" deixou de ser defesa aceitável.
Na União Europeia, a CSDDD — a Diretiva de Due Diligence em Sustentabilidade Corporativa, Diretiva (UE) 2024/1760 — obriga grandes empresas a investigar a fundo sua cadeia de fornecimento. Não basta saber quem fornece diretamente, ou seja, é preciso rastrear quem fornece para o fornecedor, de onde vem a matéria-prima, qual mina abastece a fábrica, qual fazenda produziu o algodão. A lógica é de prevenção, mapear o risco antes que ele vire escândalo.
Nos Estados Unidos, a UFLPA parte de uma presunção ainda mais dura. Se um produto tiver qualquer ligação com Xinjiang, presume-se trabalho forçado até prova em contrário. Não basta afirmar que está tudo certo. É preciso apresentar documentação, e muita.
Duas exigências parecidas na superfície, com consequências semelhantes que forçam as empresas a abrir a cadeia produtiva inteira para escrutínio externo.
No Brasil temos uma frase muito conhecida "esqueceram de combinar com os russos", ou seja, se você for tomar uma decisão importante, sem consultar quem tem poder de interferência, a sua decisão pode não valer muita coisa. E podemos estar vendo isso acontecer novamente, porém com os chineses.
A China vê a mesma exigência como outra coisa
O que a Europa e os Estados Unidos chamam de transparência, a China passou a tratar, em determinados contextos, como risco à segurança nacional.
Para a China as auditorias de sustentabilidade não são apenas ferramentas ambientais. Elas também mapeiam indústrias estratégicas, revelam fornecedores nacionais, expõem cadeias críticas e produzem um retrato detalhado da arquitetura industrial do país. Os decretos de abril de 2026 — meu ponto de partida nesta pesquisa — endureceram justamente esse controle. Informações que antes circulavam como dado empresarial comum passaram a ser tratadas, em certas hipóteses, como ativo estratégico do Estado: localização de fornecedores, processos produtivos, fluxos logísticos, relações entre empresas.
Isso não significa que toda auditoria ESG na China esteja proibida. Significa que o risco jurídico de determinadas coletas de informação aumentou, e que a linha entre "auditoria de sustentabilidade" e "coleta não autorizada de dados estratégicos" ficou mais estreita e mais incerta.
A armadilha, na prática
Volte à Global Shoes. A matriz europeia manda um e-mail para o fornecedor chinês: "envie os nomes de todos os seus subfornecedores." A resposta que volta é "não posso" — não por má vontade, mas porque atender ao pedido pode infringir regra chinesa. A matriz insiste: "precisamos visitar as fábricas e entrevistar trabalhadores." A resposta, de novo, é que isso pode ser lido como coleta não autorizada de informação.
A empresa fica no meio. Insistir pode gerar problema na China. Recuar pode significar descumprir a legislação europeia ou americana. O conflito não tem solução simples porque nenhuma das três lógicas jurídicas cede espaço às outras; elas apenas colidem dentro da mesma cadeia produtiva.
E o risco não fica só no nível corporativo. É o diretor da subsidiária, o gerente jurídico, o diretor de compras. Em determinados cenários, medidas administrativas chinesas podem atingir diretamente essas pessoas, com restrições que vão de sanções a limitações de circulação. Por isso cada vez mais executivos exigem parecer jurídico antes de qualquer decisão sensível envolvendo fornecedores chineses.
Por que o têxtil sente isso mais que qualquer outro setor
Poucas cadeias produtivas são tão longas quanto a da moda. Uma camiseta comum passa por algodão, fiação, tecelagem, tingimento, corte, costura e embalagem, e cada etapa pode acontecer numa empresa diferente, muitas vezes num país diferente. Mapear a origem de cada uma dessas etapas é exatamente o que a CSDDD e a UFLPA exigem. E é exatamente esse mapeamento profundo que passou a receber maior proteção do lado chinês.
O carro elétrico vive um problema parecido, só que com minerais em vez de fios: lítio, grafite, níquel, manganês e cobalto vêm de refinarias e fornecedores diferentes, cada um com seus próprios contratos. Mapear tudo isso, coisa que reguladores europeus e americanos também exigem, significa revelar boa parte da arquitetura industrial chinesa nesses insumos.
Como as empresas estão se adaptando
A resposta que vejo surgir com mais frequência entre empresas do setor não é confronto, é redesenho de arquitetura de informação. Em vez de exportar documentos completos, as companhias passaram a exportar resultados consolidados. Em vez de mandar a lista inteira de fornecedores, mandam a porcentagem que passou na auditoria. Em vez de enviar cada nota fiscal, enviam o total de emissão de carbono já calculado. Os dados detalhados ficam armazenados dentro da China; a matriz recebe o indicador agregado, dentro do que as regras chinesas de proteção de dados permitem.
Os departamentos jurídicos também mudaram a forma de justificar decisões comerciais. Encerrar contrato com um fornecedor "porque a lei americana exige" é uma frase que pode gerar problema do lado chinês. Por isso muitas empresas passaram a fundamentar o encerramento em elementos comerciais documentados e reais. Qualidade, prazo, custo, desempenho contratual, evitando, quando juridicamente possível, qualquer menção direta a sanção estrangeira. Isso é diferente de inventar motivo, o que seria ilegal. É documentar bem a razão legítima que, na maioria dos casos, já existe.
Esta dinâmica muito se assemelha ao efeito nominado por Anu Bradford, "Brussels Effect", dada as devidas proporções, a China, assim como a União Europeia, não impõe diretamente suas regras a um país externo. Contudo, ao regular seu mercado interno, que em um mundo globalizado foge das fronteiras locais, estas tais regras ultrapassam o limite territorial de onde elas foram idealizadas, desta forma, players que desejam participar deste mercado devem se adaptar também as normas locais.
O debate que está por trás de tudo isso
No fundo, essa história não é sobre sustentabilidade. É sobre quem tem autoridade para escrever as regras do comércio mundial. A União Europeia responde que quem quiser vender no seu mercado deve respeitar seus padrões. Os Estados Unidos combinam direitos humanos com segurança econômica e dizem que quem acessar seu mercado precisa provar que não usou trabalho forçado. A China responde que nenhum país pode usar o próprio mercado para impor política dentro do território chinês.
Nenhum desses argumentos é absurdo isoladamente. Cada um reflete uma prioridade legítima dentro do próprio sistema jurídico de origem. É por isso que o impasse resiste a soluções diplomáticas rápidas: não existe hierarquia natural entre essas três lógicas quando elas se encontram na mesma cadeia produtiva.
Minha leitura sobre onde isso vai dar
Se eu tivesse que resumir essa mudança numa frase: o comércio internacional deixou de ser, sobretudo, uma questão de preço e eficiência. Virou também um campo de disputa entre modelos jurídicos e geopolíticos que não foram desenhados para conviver.
Durante muito tempo, decidir onde produzir passava sobretudo por uma conta de custos. Essa conta não desapareceu, mas hoje uma empresa também precisa considerar os riscos jurídicos envolvidos em cada escolha. Produzir em determinado país pode facilitar o acesso a matérias-primas ou reduzir custos e, ao mesmo tempo, criar problemas regulatórios em outro mercado importante para a empresa.
Isso ajuda a entender movimentos como o “China+1” e a busca por cadeias produtivas mais regionalizadas. Também mudou o peso do compliance dentro das empresas. Saber quem são os fornecedores, de onde vêm os insumos e quais informações podem ser comprovadas deixou de ser apenas uma questão de organização interna. Em muitos setores, esses dados passaram a determinar onde e em que condições uma empresa consegue operar.
Para quem trabalha com têxtil e moda, acompanhar essas mudanças deixou de ser apenas uma questão regulatória. Elas já interferem na escolha de fornecedores, na rastreabilidade dos produtos e até na definição dos mercados em que uma empresa pode operar. Entender essas regras antes de tomar decisões sobre a cadeia produtiva é muito mais simples do que tentar corrigir problemas quando uma auditoria ou investigação já está em andamento.